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INTERATIVIDADES ENTRE DESENHO E CULTURA

Auto-retrato. Desenho de David Silva
O desenho é uma invenção humana. Uma invenção que surge, possivelmente, da tomada de consciência do mundo e de seus mistérios e, como tal, possui propósito, sentido e significado, do contrario não serviria para interação, comunicação, expressão e registro das idéias, sentimentos, impressões. Em sua particularidade material, o desenho é uma Imagem, isto é, enquanto representação gráfica o desenho é uma Imagem visual [1]. Uma Imagem sintética, clara, concisa e coerente, vale salientar. Em sua qualidade de signo, poderíamos considerar, a partir Joly (2007, p.40), que o desenho por ser caracterizado como um ícone, que “[...] corresponde à classe dos signos, cujo significante possui uma relação analógica com aquilo que ele representa [...]”, este é o caso da figura acima que lembra um rosto. 




Mas, aceitando como Joly (2007) que não existe signo puro. Nós compreendemos que um desenho pode ter também características de um índice, segundo a relação de contigüidade física com aquilo que representa, como no exemplo dos desenhos nas paredes das cavernas que indicam a presença humana naqueles lugares. O desenho também pode ser um símbolo por manter com o referente, uma relação de convenção, como por exemplo, a Imagem de uma pomba com um ramo no bico, usado para simbolizar a paz, ou ainda, a grafia de uma letra que é usada para representar o som. Neste sentido, o desenho pode ser concebido tanto como um instrumento para aquisição de conhecimento, quanto objeto de conhecimento ou, ainda, uma parcela do próprio conhecimento humano adquirido ao longo de seu desenvolvimento histórico, e assim:

Como um conhecimento tão antigo quanto o homem, o desenho carrega em si o elo capaz de exteriorizar idéias, que o homem foi sofisticando com o crescimento de seu potencial de pensar, de laboriar e de realizar. Começa com a cinza, com um bastão, com um osso, riscando o chão as paredes das cavernas, e evoluem para a cerâmica, as tintas, as canetas sofisticadas; hoje insere-seno processo digital. (GOMES; FERREIRA; SANTOS, 2000, p. 3)


Em sua importância cultural o desenho representa, por um lado, o esforço criativo de interação com a natureza e com seus semelhantes, desenvolvido pela humanidade, e por outro, a tentativa ancestral de superação dos desafios e mistérios que envolvem os fenômenos da vida. Uma interpretação do imaginário, do mundo em que se vive e das relações sociais, que se realiza por meio da interação entre elementos gráficos, numa representação, que pode ser naturalista, realista, abstrata ou esquemática. Some-se a isso o fato de que ao longo da História encontramos a presença indubitável do desenho numa infinidade de outras manifestações que, por terem sido feitas em lugares e momentos diferentes no tempo, constituem registro material das culturas ancestrais. Morin (1975), ao discutir a especialidade do gênero humano como “um animal dotado de desrazão”, contribuiu para revelar o importante valor cultural do desenho como recurso de sobrevivência ao defender a tese de que foi a partir de seu antecessor: o neandertal, que o ser humano conseguiu criar todo um sistema mitológico-simbólico que lhe assegurou a sobrevivência e permitiu sua evolução, pois segundo o estudioso:

A novidade a que o sapiens traz ao mundo não está, portanto, conforme se havia pensado, na sociedade, na técnica, na lógica, na cultura. Encontra-se, por outro lado. Naquilo que até o presente fora considerado epifenomenal ou ridiculamente considerado indicio de espiritualidade: na sepultura e na pintura. (Morin, 1975, p. 101)

Para ele, esses fenômenos revelam a invasão do imaginário no cotidiano expondo o elo entre a dilaceração causada pela morte e a superação da mesma pelas produções simbólicas criadas para responder, orientar e explicar o mundo. Em nossa compreensão, trata-se, primeiramente, do desenvolvimento da cultura, que nessa dissertação é entendida, segundo o pensamento de Geertz (1989, p. 15), como uma “teia de significados”. E, por fim, da aquisição de um entendimento diferenciado sobre a idéia de Imagem, que passou a significar mais do que a sombra projetada pela luz que acompanha cada pessoa, o reflexo na água ou, ainda, o desdobramento do ser no sonho, como explica Morin (1975): 

Por meio da palavra, do sinal, da inscrição, do desenho, (...), o mundo exterior, os seres e os objetos do meio ambiente adquiram, com o homo sapiens, uma segunda existência, a existência de sua presença no espírito fora da percepção empírica, sob a forma de Imagem mental, semelhante à Imagem que forma a percepção, já que ela não é mais do que a Imagem recordada (MORIN, 1975, p. 107)

A Imagem, que doravante passou a representar um “duplo”, adquiriu propósito, intencionalidade tanto mágica quanto estética. Uma importante demonstração de que a prática do desenho não está isolada das conquistas e transformações ocorridas na vida do homem, pois “[...] são o desenho e a pintura “realista” que levam à sua perfeição a adequação entre o significante, um bisão pintado, por exemplo, a Imagem mental do bisão recordado e o bisão empírico” (MORIN, 1975, p. 107). O que nos leva a considerar que a relação entre desenho e cultura é inevitável, pois ambos são marcas indeléveis da ação humana que caracteriza cada um dos povos do planeta, em seus modos de pensar agir e viver. Assim, uma compreensão do desenho numa perspectiva cultural deve levar em conta tanto sua dimensão simbólica quanto suas particularidades materiais enquanto Imagem. Uma vez que, ao possuir muitas formas e funções, a exemplo da interpretação gráfica do riso por meio da charge, o desenho ocupa um importante espaço na História e na cultura da humanidade como uma das provas ancestrais, da criativa capacidade humana para interagir e transformar o mundo em que se vive.
Por David Silva




[1]  Segundo Aumont (1995), são aquelas que possuem forma visível, ou seja, são captadas pelo sentido da visão. 

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